No outro dia eu resolvi fazer esse especial de halloween, em alguns lugares, eu achei que a narração ficou meio corrida, se não a história iria ficar muito maior do que eu queria, o que a principio eu imaginei ter duas folhas escritas, e acabou saindo o dobro. Espero que nenhum erro tenha passado despercebido por mim (sempre tem algum que sai). Bem é isso e espero que gostem.

  • Tenho problemas com as vírgulas

Gostosuras ou travessuras?

Dia de Halloween, vejo as crianças felizes na rua, sorrindo e brincando, já imaginando a noite que chega. Gostosuras ou travessuras? Elas vão dizer de porta em porta esperando os doces deliciosos preparados por cada um dos moradores, que entregarão de bom grado as guloseimas as pequeninas pessoas que irão passando.

Estou aqui, não para receber presentes, nem para dá-los, muito menos pra observar as festividades do local, minha missão aqui é apenas uma e ela não tem nada haver com as pessoas que estejam vivas.

31 de outubro é, para alguns um dia especial, pra mim é um dia muito tumultuado, cheio de almas que se perdem de seu caminho, e é ai que entra o meu trabalho, encontrar almas perdidas que, as vezes, nem sabem que já morreram, outra não seguiam seu caminho por querer, gostavam de ficar vagando sem rumo. E toda aquela festa, crianças, fantasias e enfeites de halloween, faziam com que as almas ficassem ainda mais confusas.

Gostosuras ou travessuras? É, eu sempre digo isso às almas que encontro, mas elas nunca respondem, apenas me seguem, ou fogem.

O dia mal tinha começado e alguns espíritos já estavam perdidos, como pequenas crianças que se perdem das mães, esses eram os mais fáceis de serem guiados. Entretanto de todos esse que já haviam aparecido, um deles, era do tipo que gostava mais das travessuras do que das gostosuras.

– Gostosuras ou travessuras? – Eu disse.

Ele me olhou nos olhos, como todos os outros, e diferentemente dos outros ele sorriu e me estendeu a mão. Eu estranhei, os espíritos não eram muito de interagir comigo. Por um momento vacilei e achei que ele estava vivo, mas quando levantei a mão e toquei na dele, ele sumiu como fumaça na frente dos meus olhos. Não sei por que, mas fiquei com uma impressão de que já o tinha visto em algum lugar, talvez fosse só impressão. E lá ia eu atrás do “garoto travesso”.

Não é como se eu tivesse um detector de espíritos, radar ou coisa do tipo, eu apenas sabia quando era ou não era um espírito. De onde eu estava dava para ver, perfeitamente, o garoto travesso. Uma das coisas boas, é que, eles não iam pra muito longe de mim depois que eu os encontrava. Lentamente ele ia se afastando e olhando pra mim, como um cachorrinho querendo me mostrar alguma coisa. Segui ele belos becos mais perigosos da cidade, toda a escória estava ali, se drogando, brigando como animais famintos por um pedaço de carne, fazendo coisas que uma criança não deveria ver em plena luz do dia. Não fazia a mínima ideia de onde eu iria chegar seguindo aquela alma, só sei que coisa boa eu não iria encontrar.

De repente, longe de todos, ele sumiu e num canto, perto da parede, havia um corpo encolhido no chão. Um cheiro de sangue e um sentimento de morte habitava aquele lugar, cheguei perto e toquei levemente para ver se ainda estava quente, não acreditei no começo, mas ele ainda exalava calor, pra falar a verdade, seu corpo estava muito mais quente que o normal, o que demonstrava uma febre alta. Cheguei mais perto e constatei que havia sangue no local, isso explicava o cheiro de sangue, agora se era dele eu não sabia, pois não parecia haver ferimentos. Quando, finalmente, virei seu rosto, percebi que o corpo no chão era do espírito que me guiara até ali. Não sei o que me deu na cabeça, mas a única coisa que eu conseguia pensar era em sair dali, peguei aquele garoto do chão e coloquei nas minhas costas da melhor maneira possível, e sai como muita dificuldade daquele lugar, ele pesava, pelo menos, dez quilos a mais que eu saiba, eu ainda não tinha super-poderes.

Seu rosto não saía da minha cabeça, por mais que eu tentasse prestar atenção na típica decoração de Halloween, roxa, preta e laranja, mesmo as abóboras mais bizarras, ou os esqueletos mais feios, não me faziam esquecer o corpo, gentilmente limpo, deitado em minha cama e todos aqueles pequenos cortes superficiais aos mais profundos.

Um choro, ao longe, me chamou atenção, não era um choro qualquer, era um choro de criança, de uma alma de criança que chorava perto de uma mulher sentada no parque. As mais tristes almas perdidas pela terra, com certeza, eram as das crianças mortas, separadas tão cruelmente do braço de suas mães, adotavam a primeira mulher que aparecia como mãe e arrastavam-se, onde quer que fossem, sempre chorando.

Quando cheguei perto dela o suficiente para me ouvir, disse o já tão manjado.

– Gostosuras ou travessuras?

Ela se virou para ver quem era, seus olhinhos cheios de lágrimas, pararam rapidamente de chorar com a minha imagem e correu para os meus braços abertos, recebendo um forte abraço meu, esse pequeno espírito não iria ter mais que chorar e sofrer por ai. Era revigorante aliviar a dor deles.

Senti alguém soprar por detrás da minha orelha, um arrepio subiu pela minha espinha. Me viro rapidamente para ver quem era, dei de cara com a alma do garoto travesso novamente, com aquele mesmo sorrisinho na cara, fazendo minha cabeça ficar totalmente confusa. Como eu podia ver seu espírito, se ele ainda estava vivo, dormindo bem em cima da minha cama, era, totalmente, fora de lógica.

Quando, finalmente, o sol se escondeu, o garoto travesso sumiu e não apareceu mais, e eu fiquei, extremamente, preocupada. Será que neste exato momento ele estaria morto dentro da minha casa?

Quanto mais eu andava, maior era vontade de ir embora, mas eu não podia, simplesmente, deixar a cidade cheia de espíritos perdidos, por causa de uma infantilidade minha. O negócio era tentar esquecer aquilo e me focar no que, realmente, era importante agora.

O mais lento possível, é assim que o tempo passa quando temos pressa para estar em algum outro lugar, não importa o que eu faça, o tempo parece estar estático, e procurar as almas agora é quase uma tortura, muito longa por sinal.

Naquele momento, o sorriso dos morcegos, pendurados nas janelas, só não eram mais brilhantes que as estrelas, por que os postes de luz não deixavam. As crianças, já com suas sacolas recheadas de doce e fantasias todas bagunçadas, encaminhavam-se para suas casas. O que era um bom sinal, e queria dizer que, logo, eu estaria em casa também.

Eu tremia a cada passo que eu dava a caminho de casa. Lidava com os mortos todos os dias e, agora, me via ali, com medo de chegar em casa e achar um defunto lá dentro. Quando cheguei em frente a porta, fiquei uns dez segundos encarado ela, torcendo para que o garoto travesso estivesse bem. E, para minha surpresa, ele estava bem e em pé, só com o lençol da cama amarrado na cintura, já que, as suas roupas eu tinha tirado para limpar o sangue. Ele me viu entrando, e me recebeu com o mesmo sorriso que eu já conhecia e não pude deixar de retribuir.

– Gostosuras ou travessuras? – Ele disse e veio direto me abraçar.

Eu não sabia quem ele era, ou de onde ele era, nem por que o encontrei naquele lugar, e também não sabia por que eu podia ver seu espírito enquanto ele ainda estava vivo. O que eu sabia é que, mesmo podendo fazer com que qualquer pessoa não prestasse atenção em mim, ele ainda conseguia me notar e eu desejava, profundamente, que aquele abraço nunca acabasse.

Não estou viva, nem morta, não sou um anjo, nem um demônio, não sou um espírito, nem a própria morte… Não sei, exatamente, o que sou, mas sei que o meu trabalho por aqui é encaminhar os espíritos, e hoje descobri que também possuo sentimentos.

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